17 de mai de 2012

VERÔNICA





Com o fim da semana santa, lembrei de um tema recorrente em diversos desenhos: o rosto de Cristo com sua coroa de espinhos. Acho que é uma reminiscência das procissões de sexta-feira da paixão em Chácara. Em alguns pontos do percurso da procissão, uma senhora de vestes negras, com um véu cobrindo o rosto, exibia um pequeno manto branco com o rosto de Jesus Cristo, enquanto entoava um canto solene e triste, narrando a lenda de Verônica , uma mulher que teria limpado o rosto de Jesus numa de Suas quedas no caminho para a crucificação. Seu rosto teria ficado gravado no manto branco. Verônica é uma lenda mesmo, não está na Bíblia. É na verdade uma figura meio estranha ao imaginário católico "oficial", embora ela tenha sido incorporada aos rituais da semana santa.

A existência dessa lenda é extremamente interessante para mim, e instiga reflexões sobre a própria utilização de imagens pelo catolicismo. Na antiga religião judaica, berço do cristianismo, a representação pictórica ou escultural de Deus era proibida, e continuou proibida ou extremamente limitada ainda nos primeiros séculos da era Cristã, fato que teve consequências importantes na própria arte pictórica da Idade Média ocidental.

Jesus Cristo é o próprio Deus encarnado, que se mostrou, dessa forma, aos olhos humanos. Verônica é portanto o primeiro ser humano a materializar, imprimir, gravar, registrar a imagem de Deus feito homem na forma de seu filho. Verônica seria então uma espécie de mãe fundadora da arte iconográfica cristã, uma "deusa das imagens". E o fato de sua história não estar relatada na bíblia, pois sua origem está relacionada a narrativas dos primeiros cristãos convertidos no Oriente Médio, faz dela uma figura meio pagã ou transgressora, exatamente por ter rompido o cânone da não representação pictórica de Deus. E neste caso o fato de ser ela uma mulher é ainda mais significativo, tendo em vista a posição subalterna e, às vezes, marginal ou mesmo proscrita e demoníaca, do feminino durante séculos da cultura judaico cristã.

Tenho a idéia de uma série de desenhos com faces diversas, de figuras conhecidas ou não, ornadas com coroas de espinhos. Os espinhos de cada face representam sempre aquilo que é o contraponto necessário da vida do personagem: aquilo que o faz sofrer, mas que também é necessário para sua existência. Quase uma interpretação visual da frase "você não vale nada, mas eu gosto de você". Alguns desenhos já estão prontos. O desenho acima foi o primeiro a ser feito, aquele que inspirou a série: uma caricatura do próprio Cristo. Se você não pode ou não quer abraçar sua cruz, mande ela às favas, mas assuma e coloque ao menos uma coroazinha de espinhos.

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