9 de jan. de 2013
A MULHER ALADA
Finalmente, depois de alguns anos de trabalho, está pronto o desenho animado A MULHER ALADA. Não gosto muito do termo "animação", pois acho que ele atualmente é genérico demais, devido a profusão de técnicas usadas pelos artistas, como o stop motion e a modelagem 3D. Prefiro ressaltar o fato de ser um "desenho" animado, pois a técnica usada aqui foi exatamente esta: cerca de 2000 desenhos a grafite e nanquin na mesa de luz.
As pessoas têm me perguntado sobre a motivação inicial para realizar o filme: "de onde você tirou esta ideia ?" Sinceramente, não me lembro. Acho que ocorreu meio a moda surrealista: imagens que se sucederam na minha mente, de forma espontânea, como num sonho em vigília. Mas isso não impede que eu faça algumas especulações sobre seu significado ou sobre o que eu sinto a seu respeito. Acho que ele é uma grande homenagem à liberdade. E isto se reflete até na maneira como ele foi produzido, sem qualquer tipo de patrocínio ou financiamento que me colocasse condições de tempo, formato ou tratamento. Liberdade total na criação e na execução. A consequência: o trabalho se arrastou por longos oito anos.
No decorrer do trabalho, uma coisa começou a me chamar atenção. O tema de uma mulher com asas é pouquíssimo abordado, tanto na literatura quanto nas artes visuais. Os anjos, embora não tenham sexo, são geralmente retratados como homens, ainda que um tanto andrógenos (me lembro agora de dois anjos de Caravagio retratados como mulheres). O que isso indica ou simboliza ? Sinceramente não sei. Recentemente ouvi uma música sertaneja da dupla Gino e Geno, que possui a seguinte estrofe: "Eu digo isso, digo numa boa, mulher que não dá voa. Eu penso assim, continuo pensando, nunca vi mulher voando." Mas o que eu percebo é que cada vez mais elas voam, dando ou não...
As cenas do filme foram desenhadas numa sequência aleatória, de acordo com minha disposição em cada momento. Isso quer dizer que trechos da cena final, por exemplo, foram desenhados há seis ou sete anos, enquanto trechos do início foram desenhados agora em 2012. O resultado disso é uma perceptível irregularidade no estilo (do realismo ao cartoon e ao puro grafismo) e mesmo na qualidade do traço. Há desenhos bem legais e desenhos bastante toscos. Isso quer dizer que meu desenho melhorou nos últimos anos e o filme traz uma radiografia desta evolução.
Acabei optando por não colorir os personagens, após ouvir a opinião de algumas pessoas que achavam o resultado sem cor mais bonito que o colorido (talvez por ressaltar o aspecto artesanal do trabalho). Eu desde o início tive dificuldade em conceber um esquema de cores harmônico para o filme. Tenho a impressão de que ele se recusava a ser colorido. Coloquei cores e texturas apenas nos cenários, ainda assim sem critérios muito objetivos. Acho que a variação um tanto aleatória nos matizes das cenas de voo contribui para a atmosfera surreal da história. Em algumas cenas, porém, usei cores que se adequassem à situação temporal ou emocional.
A verdade é que a opção por não colorir os personagens me polpou mais alguns meses de trabalho no photoshop, o que me possibilitou finalizar o vídeo a tempo de exibi-lo no Festival Primeiro Plano de 2012. A última cena, em que o personagem sai do filme e entra no papel em branco, se libertando de sua situação inicial de confinamento e paralisia (numa espécie de meta-linguagem) foi desenhada e finalizada de madrugada, horas antes da sessão do festival. A ideia original era de que ele saísse correndo pela rua, mas simplesmente não houve tempo de desenhar o cenário. Achei tão interessante o resultado, que resolvi manter o final daquela forma, mesmo tendo a possibilidade de alterá-lo depois de realizada a primeira exibição no festival.
A trilha sonora utiliza alguns clássicos do século XIX, mas pretendo ainda este ano providenciar uma trilha alternativa, devido a possíveis problemas com direitos autorais que já se pronunciam. Segue o vídeo:
10 de out. de 2012
Uma cenazinha da animação A MULHER ALADA
A sete anos venho trabalhando esporadicamente neste desenho animado interminável, que nunca fica pronto. Pretendo finalizá-lo até novembro, a tempo de exibi-lo no Festival Primeiro Plano. Acho que dessa vez eu consigo. Enquanto isso, vai aí uma pequena cena de alguns segundos. "Tem uma mulher pelada sobrevoando a cidade ! Tome alguma providência !" grita a beata apavorada ao telefone para o general...
8 de out. de 2012
30 de set. de 2012
Ilustração para o CEAD
Uma ilustração feita semana passada, com o mote "Educação a distância: novas possibilidades ao seu alcance".
12 de set. de 2012
A Lucy original
Postei aqui há meses (novembro de 2011) um desenho supostamente inspirado na música Lucy in the sky with diamonds. Na verdade, eu havia modificado um trabalho anterior, de teor bem menos lisérgico e poético, para adequá-lo à convocatória da revista virtual Ideafixa, que na ocasião pedia desenhos inspirados em músicas. O desenho original (um devaneio erótico surreal) é este aqui embaixo. Bem mais interessante...
4 de set. de 2012
ARQUIVO 8
Um desenho de 1987 ou 88 (o skaner comeu a data...). O interessante é que não houve pesquisa alguma sobre a anatomia correta de uma caveira humana. O desenho é exatamente o que eu inferi que fosse uma caveira, a partir de imagens que eu via em outros lugares, aleatoriamente (na época não havia internet). Ainda assim ela me parece bem convincente e... viva. Em tempo: não houve nenhuma intenção em fazer propaganda antifumo, muito pelo contrário.
17 de mai. de 2012
VERÔNICA
Com o fim da semana santa, lembrei de um tema recorrente em diversos desenhos: o rosto de Cristo com sua coroa de espinhos. Acho que é uma reminiscência das procissões de sexta-feira da paixão em Chácara. Em alguns pontos do percurso da procissão, uma senhora de vestes negras, com um véu cobrindo o rosto, exibia um pequeno manto branco com o rosto de Jesus Cristo, enquanto entoava um canto solene e triste, narrando a lenda de Verônica , uma mulher que teria limpado o rosto de Jesus numa de Suas quedas no caminho para a crucificação. Seu rosto teria ficado gravado no manto branco. Verônica é uma lenda mesmo, não está na Bíblia. É na verdade uma figura meio estranha ao imaginário católico "oficial", embora ela tenha sido incorporada aos rituais da semana santa.
A existência dessa lenda é extremamente interessante para mim, e instiga reflexões sobre a própria utilização de imagens pelo catolicismo. Na antiga religião judaica, berço do cristianismo, a representação pictórica ou escultural de Deus era proibida, e continuou proibida ou extremamente limitada ainda nos primeiros séculos da era Cristã, fato que teve consequências importantes na própria arte pictórica da Idade Média ocidental.
Jesus Cristo é o próprio Deus encarnado, que se mostrou, dessa forma, aos olhos humanos. Verônica é portanto o primeiro ser humano a materializar, imprimir, gravar, registrar a imagem de Deus feito homem na forma de seu filho. Verônica seria então uma espécie de mãe fundadora da arte iconográfica cristã, uma "deusa das imagens". E o fato de sua história não estar relatada na bíblia, pois sua origem está relacionada a narrativas dos primeiros cristãos convertidos no Oriente Médio, faz dela uma figura meio pagã ou transgressora, exatamente por ter rompido o cânone da não representação pictórica de Deus. E neste caso o fato de ser ela uma mulher é ainda mais significativo, tendo em vista a posição subalterna e, às vezes, marginal ou mesmo proscrita e demoníaca, do feminino durante séculos da cultura judaico cristã.
Tenho a idéia de uma série de desenhos com faces diversas, de figuras conhecidas ou não, ornadas com coroas de espinhos. Os espinhos de cada face representam sempre aquilo que é o contraponto necessário da vida do personagem: aquilo que o faz sofrer, mas que também é necessário para sua existência. Quase uma interpretação visual da frase "você não vale nada, mas eu gosto de você". Alguns desenhos já estão prontos. O desenho acima foi o primeiro a ser feito, aquele que inspirou a série: uma caricatura do próprio Cristo. Se você não pode ou não quer abraçar sua cruz, mande ela às favas, mas assuma e coloque ao menos uma coroazinha de espinhos.
26 de mar. de 2012
Tio Sam Chapeleiro Louco
Fiz este desenho para participar da edição 22 da revista IDEAFIXA, mas infelizmente ele ficou de fora. O tema desta edição é POSTER (ou cartaz), e a idéia original do meu desenho era fazer uma paródia do famoso cartaz de propaganda da Primeira Guerra Mundial, no qual o tradicional personagem do Tio Sam (símbolo do nacionalismo americano), aponta para o cidadão e intima: "I want you for the U.S. Army" (Eu quero você para o exército dos EUA). De repente reparei uma semelhança (seria coincidência ?) entre a figura do Tio Sam neste cartaz e a figura do Chapeleiro Louco, interpretado por Jonny Deep, no cartaz do filme Alice no País das Maravilhas, do Tim Burtom. Fiz então este Tio Sam com aparência do Chapeleiro Louco, tomando um chá de cogumelo. No lugar do dedo indicador, temos o dedo mindinho sutilmente levantado, apontando o observador. Dizem que existe uma associação entre as iniciais de Uncle Sam (Tio Sam) e a sigla dos EUA em inglês: U.S. (United States, sem o "of America). Assim, criei a frase: "I want you for the last crazy party in the Uncle Sam Apartment" (Eu quero você para a última festa louca no apartamento do Tio Sam), sendo que as iniciais de Uncle Sam Apartment formam a sigla USA (como em United State Army). Temos assim o cartaz de divulgação de uma festa, talvez a última, daquelas promovidas pelo Chapeleiro e a Lebre no país das Maravilhas, só que agora no reino de maravilhas do império americano.
3 de mar. de 2012
Ilustrações para o CEAD
Acho que o ano está finalmente começando. Na última semana talvez eu tenha desenhado mais que em todo ano de 2011 (exagero !). 70 ilustrações em poucos dias, para um material didático impresso sobre enfermagem e saúde mental.
Mas foi uma prova de fogo para mim. Não imaginava que seria capaz de fazer tantos desenhos em tão pouco tempo, com um resultado satisfatório (pelo menos para meus critérios). De todos os desenhos, selecionei 2 para postar aqui. São desenhos em que eu tomei a liberdade de inserir uma certa dose de humor.
O primeiro é uma caricatura de Philipe Pinel, um dos médicos pioneiros na humanização do tratamento de doentes mentais, ainda no século XVIII. Achei tão simpática a descrição de seu trabalho, que resolvi colocar um pequeno coração pulsando em sua enorme cabeça: um traço de compaixão e afetividade em pleno auge da racionalidade do iluminismo francês.

O segundo é um desenho que reproduz a clássica imagem alegórica da justiça: uma mulher com venda nos olhos, a balança em uma das mãos e a espada na outra. Não resisti a tentação de fazê-la largar a espada e levantar a venda, para dar uma espiada no que se passa. Afinal, nossa justiça não é tão cega (ou imparcial), nem tão punitiva assim. Ia colocar um cérebro pesando em um dos pratos da balança, mas aí já seria punk demais (fica aqui registrada a ideia).
Mas foi uma prova de fogo para mim. Não imaginava que seria capaz de fazer tantos desenhos em tão pouco tempo, com um resultado satisfatório (pelo menos para meus critérios). De todos os desenhos, selecionei 2 para postar aqui. São desenhos em que eu tomei a liberdade de inserir uma certa dose de humor.
O primeiro é uma caricatura de Philipe Pinel, um dos médicos pioneiros na humanização do tratamento de doentes mentais, ainda no século XVIII. Achei tão simpática a descrição de seu trabalho, que resolvi colocar um pequeno coração pulsando em sua enorme cabeça: um traço de compaixão e afetividade em pleno auge da racionalidade do iluminismo francês.

O segundo é um desenho que reproduz a clássica imagem alegórica da justiça: uma mulher com venda nos olhos, a balança em uma das mãos e a espada na outra. Não resisti a tentação de fazê-la largar a espada e levantar a venda, para dar uma espiada no que se passa. Afinal, nossa justiça não é tão cega (ou imparcial), nem tão punitiva assim. Ia colocar um cérebro pesando em um dos pratos da balança, mas aí já seria punk demais (fica aqui registrada a ideia).
7 de jan. de 2012
Novo link para MIRAGENS
Enquanto preparo A MULHER ALADA (um novo desenho animado), vai aqui novamente o MIRAGENS, desenho animado de 2006. Clique AQUI para ver o vídeo.
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