7 de abr. de 2010

GABRIELA 2010


O ano de 2009, sob o ponto de vista político, chegou ao fim com as especulações e espectativas em torno das possíveis candidaturas para as eleições presidenciais de 2010. Eu estou desalentado com as perspectivas. O único dado novo e interessante do processo sucessório que começa a ser desenhado é a presença de duas mulheres de esquerda, Marina e Dilma, ambas com um forte histórico de atuação social e política.

Ainda em meados de 2009, li uma reportagem sobre o lançamento do livro FILHA, MÃE, AVÓ E PUTA, de Gabriela Leite, com uma breve biografia da autora. A figura e a história desta mulher me impressionaram muito. Sexagenária, bela e simpática, ela faz questão de afirmar que é “puta aposentada”. Depois que interrompeu sua atividade profissional, devido a idade, fundou a ONG “Davida” , passando a reunir e auxiliar outras putas através da instituição. Em seguida, fundou a grife DASPU (referência à grife paulista DASLU), com roupas criadas e confeccionadas por e, embora não exclusivamente, para putas. Sucesso total !

Pensei imediatamente: vamos acabar com a caretice na política tradicional. Se podemos ter uma ecologista oriunda das classes populares do norte e uma ex-guerrilheira nas eleições de 2010, por que não termos também uma autêntica líder do movimento social das prostitutas brasileiras ? Depois de fundar a ONG Davida e a grife DASPU, Gabriela poderia fundar o PPdoB (Partido das Putas do Brasil) e disPUTAR (não resisti ao trocadilho) a presidência. Teria meu voto.

Desenhei e pintei então, por antecedência, a foto oficial da Presidente Gabriela, já com a faixa presidencial, inspirada na foto oficial do Presidente Lula. Na foto atual, Lula está posando sorridente com sua faixa, em frente ao Palácio do Alvorada. Imaginei que Gabriela pudesse transferir a sede do poder para a Praça Tiradentes, ponto de prostituição do Rio que ela muito freqüentou. Seria, diga-se de passagem, ambiente muito mais adequado ao tipo de transação que se promove atualmente em Brasília. Assim usei como fundo do desenho, monumentos da praça.

Nem Dilma, nem Marina ! Gabriela 2010 !!!

Obs: o cigarro gigantesco na mão de Gabriela, é um protesto contra a Lei Antifumo.

6 de abr. de 2010

A REFORMA DO CAPITALISMO


Logo após a cúpula do G20, em abril de 2009, conversei com meu amigo Marcos Marinho, um apaixonado defensor das esquerdas. Ele estava indignado com uma notícia que lera naqueles dias.

Disse-me ele, entre um gole e outro de seu Campari: “Os EUA anunciaram a liberação de uma verba milionária para que a França possa fazer uma reforma na torre Eiffel. Eles argumentam que a torre é um dos símbolos do mundo capitalista, portanto deve ser revitalizado. Isso é um absurdo ! O mundo capitalista está falido, a beira de um colapso, e eles querem injetar milhões na reforma do maior símbolo de um sistema decadente !”

As relações políticas, militares e culturais entre EUA e França, dois países chave para o mundo ocidental capitalista, possuem raízes profundas e uma longa trajetória na história. Os franceses socorreram os americanos na Guerra de Independência. Os americanos socorreram os franceses após a invasão nazista na Segunda Grande Guerra. A Estátua da Liberdade foi um presente dos franceses aos americanos. Nada mais justo que os EUA devolvam agora a gentileza, financiando a reforma da Torre Eiffel.

Imageinei o ato final deste namoro, desta dança. A Estátua da Liberdade se entrega lânguida, a este verdadeiro símbolo fálico, emblema maior do poder capitalista (diga-se de passagem, construído sobre valores estritamente masculinos, para não dizer machistas), que no momento nescessita desesperadamente tirar suas teias de aranha, seu ferrugem, seu atraso... em suma: trocar o óleo.

EXPOSIÇÃO

Quero agradecer a todos que estiveram na minha exposição do Pró-música, O MUNDO É UM PANDEIRO, encerrada ontem. Foi muito gratificante receber os comentários, ver o trabalho provocando reações diversas nas pessoas, do riso à perplexidade. A partir de hoje vou publicar aqui as seis charges e textos da exposição que ainda não estavam disponíveis on line, pois foram finalizadas nas vésperas do evento de abertura. Todas elas, porém, foram concebidas e já estavam iniciadas em 2009. Aguardem agora a publicação do livro...

Quem ainda não tem, adquira meu livro anterior, O IMPERADOR DE PASÁRGADA, nas livrarias TERCEIRA MARGEM, LIBERDADE, LEITURA, PLANET MUSIC, VOZES, PEDRO II ou QUARUP.

11 de mar. de 2010

EXPOSIÇÃO NA GALERIA DO PRÓ-MÚSICA

Vou inaugurar na próxima segunda, dia 15, uma exposição de charges e textos na Galeria do Pró-música, na Av. Rio Branco. A exposição, sob o título de O MUNDO É UM PANDEIRO, reune 16 desenhos publicados aqui no blog durante o ano de 2009. Pretendo posteriormente transformar o conjunto deste trabalho em novo livro, nos mesmos moldes de O IMPERADOR DE PASÁRGADA, publicado ano passado, com desenhos e textos. Como um dos principais personagens, presente em 7 das 16 charges, é o Presidente Lula, serviremos "batida de limão" e "leite de onça" na noite de abertura, a partir das 18:30. Apareçam por lá e divulguem para os amigos... e inimigos.

28 de jan. de 2010

A FINA FLOR DO BOTEQUIM 1


Este desenho foi feito em 2007 e faz parte de uma série sobre figuras de botequim. Figuras que conheci ou observei nos butecos por onde andei nos últimos vinte anos (pois sou boêmio desde os 16!). Aqui, vemos um traveco, meio bêbado, se dirigindo ao mictório...

27 de jan. de 2010

Arquivo 5


Resgatei hoje este desenho de 2001. Nosso permanente, e às vezes despercebido, desejo de trascendência... Este sujeitinho parece ter atingido algum tipo de iluminação ou leveza espiritual e se desprendeu do chão. Tão diferente de mim, que realizo pequenos saltos desesperados, sabe Deus a que duras penas.

12 de jan. de 2010

EM LONDRES, MEDINDO OS PEPINOS (com duas versões)



Este desenho estava no esboço desde maio do ano passado. Resolvi fazer a arte final estes dias.

Durante a reunião de cúpula do G20, no mês de abril de 2009 em Londres, Lula concedeu uma entrevista a jornalistas na embaixada brasileira, avaliando os resultados do encontro e a dimensão dos efeitos da crise sobre a economia mundial. Lula retribuiu a gentileza de Obama, que havia declarado publicamente na véspera sua admiração pelo colega brasileiro. Disse que também admirava Obama e logo depois proferiu uma daquelas frases que nos fazem arregalar os olhos e pensar: “ele não disse isso!”. A frase fazia uma comparação entre os problemas econômicos do Brasil e dos EUA, naquele momento: “O Obama tem um pepino infinitamente maior que o eu pra descascar.”

Incrível. Fiquei besta. Com o Lula é difícil competir, a piada já vem pronta. Pretendo fazer uma pequena série de desenhos chamada ASSIM FALOU LULATUSTRA (em referência ao livro de Nietzche, ASSIM FALOU ZARATUSTRA) reunindo as frases mais espantosas ditas pelo presidente no ano de 2009 (e já tenho uma boa coleção delas). Mas essa frase merecia um desenho especial, a parte.

Imaginei um pequeno intervalo nas reuniões do G20, em Londres. Uma pausa para o xixi e o cafezinho dos chefes de estado. Lula e Obama, amigos e descolados que são, resolvem ir tirar a àgua do joelho ali mesmo, na fachada do Palácio de Buckinghan, atrás da guarita do guarda que vigia a entrada do edifício. Lula, que não costuma perder a oportunidade de alardear seus atributos e grandezas, resolve comparar o tamanho dos pepinos. Se espanta, descepcionado com sua desvantagem em relação a Obama e exclama: “O seu é infinitamente maior que o meu!”.

Na guarita ao lado, o pobre soldado da guarda real observa a cena pelo canto do olho, mudo e atônito, sem poder intervir em mais esta pequena e muito espontânea quebra do protocolo por parte dos dois maiores e mais populares políticos da atualidade. Fiz duas versões do desenho, com e sem o guarda na guarita. A presença do guarda na cena cria problemas de composição que não foram ainda totalmente resolvidos. Gostaria de saber a opinião de vocês sobre a melhor opção, para que eu possa avaliar melhor o resultado final, antes de expôr ou editar o trabalho.

7 de jan. de 2010

Papai Noel, o urubu !




Embora eu seja vascaíno, fiz este desenho na véspera de Natal em homenagem a um amigo meu que é flamenguista doente. Mandei para ele, via ORKUT. Acho que meu amigo não gostou muito do desenho ou do comentário que fiz na legenda. Mandou-me dias depois uma bela mensagem de Ano Novo, mas sem comentar nada...

Como sou um pouco cara de pau e gostei do desenho, vou publicá-lo aqui. Talvez ele seja incluído também na coletânea de charges que pretendo editar ainda neste início de 2010, sobre os fatos mais marcantes de 2009.

A idéia do desenho é a seguinte: imaginei que Papai Noel só pode ser mesmo um urubu, este bicho que traz mau agouro e é mascote do framengo. Por isso é que ele trouxe este presente de Natal antecipado para os flamenguistas: o título do brasileirão 2009. Mas, além de urubu, Papai Noel seria também um piadista, e trouxe um presente para os vascaínos: o título do campeonato brasileiro... da SEGUNDA DIVISÃO ! Maldito !

Fiquei feliz com a volta do Vasco para a primeira divisão, mas fiquei impressionado com os vascaínos que saíram na rua com bandeiras e cornetas, comemorando como se tivessem conquistado o título mundial. Ou comemorando aos berros e abraços num botequim quando “massacramos” o Ipatinga por 4x0 no Macaranã. Tenha santa paciência!

Enfim, só para não passar despercebido, o cenário do desenho é inspirado numa foto tirada no Maracanã, no dia da final contra o Grêmio.

15 de dez. de 2009

O MUNDO É UM PANDEIRO


A crise econômica e outros epsódios deste ano me renderam uma série de idéias para charges. Algumas foram realizadas e postadas aqui, nos últimos meses. Outras ficaram apenas no esboço, devido a outros projetos e prioridades acumuladas. Pretendo finaliza-las até 31 de dezembro e talvez transforme o conjunto deste trabalho numa exposição, para o início de 2010. O título provisório é O MUNDO É UM PANDEIRO (ou 2009: O ANO EM QUE O MUNDO ACABOU E NÓS NÃO PERCEBEMOS).

Desde que Obama disse que o Lula "é o cara", durante a cúpula do G20 em Londres, comecei a achar que os dois formam uma espécie de dupla dinâmica da política internacional. Obama não se limitou a dizer "este é o cara". Completou ainda: "Eu adoro este cara. É o político mais popular do planeta. É porque ele é boa pinta". Isso é quase uma declaração de amor. Mas um amigo meu, que entende bem o inglês, disse que o melhor sentido para a frase de Obama, "this is my man" (cuja a tradução literal é "este é meu homem"! Hummmm... ), não seria bem "este é o cara", mas sim "este é meu chapa (meu parceiro, meu chegado, etc...)".

Pensei inicialmente em desenhar Obama como Batman e Lula como Robin, para acompanhar a interpretação do meu amigo de que a frase de Obama seria "este é meu chapa". Mas acredito que aquele momento de crise, em que dois heróis americanos clássicos seriam bem vindos, era também um momento de celebração. Afinal, temos agora no protagonismo da política internacional, um operário e um negro, algo inimaginável a anos atrás.

Optei então por criar uma cena mais brasileira e carnavalesca. Lembrei logo de Carmem e Aurora Miranda, acompanhadas do Bando da Lua, um conjunto musical de rapazes com trajes de malandro carioca. Numa das cenas do filme VOCÊ JÁ FOI A BAHIA ?, de Walt Disney, Aurora Miranda e o Bando da Lua contracenam com Zé Carioca e Pato Donald, ao som de uma música chamada OS QUINDINS DE IÁ IÁ. O filme fazia parte dos esforços do governo americano de estreitar os vínculos com a América Latina,a partir da década de 30. Carmem Miranda viria a se tornar uma das atrizes mais populares de Hollywood, a partir da década de 40.

Assim, optei por retratar Obama como um dos integrantes do Bando da Lua, tocando pandeiro, e Lula como Carmem Miranda, numa referência às primeiras aproximações entre a indústria cultural americana e a cultura popular brasileira. Os trajes de Lula não seguem a risca a exuberância dos vestidos e "balangandãs" de Carmem Miranda, mas lembram a maneira como os homens se vestem de mulher no carnaval para brincar nos blocos de rua. Aliás, será que Lula, tão popular, já bricou vestido de mulher no carnaval ? O figurino de Obama é o mesmo usado pelos rapazes do Bando da Lua no filme VOCÊ JÀ FOI A BAHIA.

O cenário também remete ao filme, além de se inspirar nos traços usados por Di Cavalcanti para retratar alguns ambientes em seus quadros. Estamos ali numa estreita rua de paralelepípedos cercada de bares e de um casario meio arcaico, meio moderno, que pode ser de uma cidade do interior de Minas, da Lapa carioca ou do Pelourinho.

Obama profere sua célebre frase, endereçada a Lula ("this is may man"), que neste contexto adiquire uma conotação maliciosa. O título da charge (O MUNDO É UM PANDEIRO), faz referência ao título de uma chanchada da década de 40, protagonizada por Oscarito: ESTE MUNDO É UM PANDEIRO. Enfim, no palco e na dança da política internacional, talvez seja Obama quem bata e faça vibrar o pandeiro, que é este mundo, mas o show, a graça e o gingado ficam por conta de Lula.

14 de dez. de 2009

PÉ NO SACRO


Nestas últimas quatro semanas estive envolvido com situações que me afastaram um pouco do desenho e, por conseqüência, do blog. Aos poucos as coisas vão entrando nos eixos. Assim, enquanto não termino a charge em que estou trabalhando, sobre Lula e Obama, vou postar aqui este desenho feito em janeiro de 2007 e pelo qual tenho um carinho especial.

Ele foi exposto, ainda no ano de 2007, em uma coletiva organizada pelo artista plástico Tadeu Mattoso no Espaço Mascarenhas. O tema comum era religiosidade. Gostei bastante da reação do público na noite de abertura. Foi nessa época que eu comecei a levar mais a sério este lance de desenho.

Acabei desenvolvendo uma série de outras imagens com temas sacrílegos, que juntas constituem o projeto de um novo livro, chamado PÉ NO SACRO. Não sei quando ele estará finalizado. Por enquanto vou mostrando aqui alguns desenhos da série.

Sempre tive vontade de criar uma versão da Santa Ceia. Aí está. O Cristo cadavérico está suspenso sobre a mesa de um bar. Seu sangue verte das chagas e enche os copos dos boêmios que conversam, gesticulam, bebem e fumam animadamente.

Três vivas a Da Vinci, Tintoretto e Buñuel, autores das melhores interpretações que conheço deste grande tema bíblico.